Sobre pesquisa e outras infâmias

Diário de campo de dois espectadores e um pródigo bucaneiro.

sábado, julho 12, 2008

Encierros de San Fermin

“Ninguém sabe o passado que lhe espera” (anônimo.)


Gertrude Stein dizia que somente os povos espanhol e norte-americano podiam entender o sentido de certas abstrações. Utilizava como medida de comparação os alemães. Segundo Stein, estes últimos gostam do sangue das corridas de touros, diferente dos espanhóis e norte-americanos que gostam do ritual. (Stein Gertrude; apud Cecília Oliveira; Beirute Asa Norte)

Ontem, assisti paralisado, num canal da tv espanhola o inicio de um “encierro” em San Fermin – Pamplona. Dezenas de pessoas – na sua grande maioria homens - com rostos de pavor esperavam a abertura das portas que libertariam 14 toros que durante dois ou três minutos perseguem uma multidão em estampido.

No fundo todos querem estar próximos de Deus. Participar de um “encierro” é isto... A ansiedade de estar vivo e não ter a morte por perto desperta a sede de possuí-la.

Antes das portas se abrirem os corredores por três vezes lançam ao céu um pequeno cântico dedicado a “San Fermin”: “A San Fermin pedimos, por ser nuestro patrón, nos guíe en el encierro, dándonos su bendición...” E um ultimo grito que tenta espantar o medo ... “viva San Fermín”.

Medo de submeter-se às forças da natureza representadas nos touros robustos fartos de chifres medonhos.

Quem me botou no vicio de ver estas coisas foi meu bom amigo Fernando Campos Leza, natural de La Rioja, “cigueñero” de pura cepa.

No fundo eu gosto que, pelo menos, parte da Espanha tenha como heróes a estes corredores dos “encierros”. Outros povos cultuam o Batman e o Homem Aranha.

Não há como discutir questões “politicamente corretas” sobre touros com meu amigo Fernando. Ele somente enxerga a beleza do ritual. Diante do brilho nos olhos de quem vivencia o ritual, outros argumentos são como latidos de cachorros destinados à lua de uma noite azul e infinita.

PS: Fernando amigo, gracias por las malas influencias.


Eladio


Imagen: Silvino Bueno / Eladio Oduber, 2007