Caballo
Entender a nós mesmos é tarefa infame. Entender às outras pessoas envolve alguns esforços. Dentre eles, o sacrifício das preferências subjetivas e uma disposição para minimizar os próprios juízos de valor.
Admitir que os nossos pontos de vista podem ser relativizados e que as nossas escolhas axiológicas podem ser equalizadas a outras escolhas, nos coloca numa posição bastante desconfortável, eu diria, desamparada.
Todos os dias depois de lavar o rosto, escovar os dentes e vestir a roupa, colocamos os óculos dos nossos pré-conceitos e saímos apontando o dedo, tentando petrificar, no fluxo caótico da vida, alguns desejos, atribuindo “nomos” ao devir, querendo paralizar o mundo que flui, que envelhece e derrete moribundo diante de nós.
É como ir ao rio com um pote redondo e voltar a casa com a ilusão de que colhemos um pedaço de água redonda.
Em geral não saímos para a rua com a finalidade de entender à humanidade. Por isto levamos o molde dos pre-julgamentos conosco. Eles nos ajudam a entender a vida com a barriga. Não estamos interessados em compreender, procuramos que o mundo nos entenda. Nada mais prazeroso que encontrar um autor que não nos contrarie, diz Millor Fernandes.
Vamos ao rio da vida com o nosso pote redondo e esperamos que a vida nele caiba. Assim, confirmamos nossas profecias.
Saímos de casa, assombrados pelo fantasma de Picasso: “eu não procuro, acho” e a existência nos fala baixinho no ouvido: “ não me procurarias se já não me tivesses achado”.
Bom domingo a todos.
Eladio Oduber
Conferir: JUNG, C. G. (Org.) “O homem e seus símbolos”. Rio de Janeiro: Ed. Nova Fronteira, 1964 pp. 62 - 63
Imagem: Cavalo / Eladio Oduber. Março 2007
Admitir que os nossos pontos de vista podem ser relativizados e que as nossas escolhas axiológicas podem ser equalizadas a outras escolhas, nos coloca numa posição bastante desconfortável, eu diria, desamparada.
Todos os dias depois de lavar o rosto, escovar os dentes e vestir a roupa, colocamos os óculos dos nossos pré-conceitos e saímos apontando o dedo, tentando petrificar, no fluxo caótico da vida, alguns desejos, atribuindo “nomos” ao devir, querendo paralizar o mundo que flui, que envelhece e derrete moribundo diante de nós.
É como ir ao rio com um pote redondo e voltar a casa com a ilusão de que colhemos um pedaço de água redonda.
Em geral não saímos para a rua com a finalidade de entender à humanidade. Por isto levamos o molde dos pre-julgamentos conosco. Eles nos ajudam a entender a vida com a barriga. Não estamos interessados em compreender, procuramos que o mundo nos entenda. Nada mais prazeroso que encontrar um autor que não nos contrarie, diz Millor Fernandes.
Vamos ao rio da vida com o nosso pote redondo e esperamos que a vida nele caiba. Assim, confirmamos nossas profecias.
Saímos de casa, assombrados pelo fantasma de Picasso: “eu não procuro, acho” e a existência nos fala baixinho no ouvido: “ não me procurarias se já não me tivesses achado”.
Bom domingo a todos.
Eladio Oduber
Conferir: JUNG, C. G. (Org.) “O homem e seus símbolos”. Rio de Janeiro: Ed. Nova Fronteira, 1964 pp. 62 - 63
Imagem: Cavalo / Eladio Oduber. Março 2007
2 Comments:
Querido Eladio
depois de muito tempo montada em meu cavalo e vestida com armaduras, fui percebendo que o peso que carregava era impossível. Ia me defendendo do mundo e de todos, mais na verdade era de mim mesma que fugia. Desisti do cavalo e me despi das ferramentas, hoje me sinto mais fortalecida para encarar a mim mesma, o inimigo não é o outro e sim o obscuro interno.
Concordo com as palavras do seu belissimo texto.
Beijos.
Lindo texto, obrigado!
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