Sobre pesquisa e outras infâmias

Diário de campo de dois espectadores e um pródigo bucaneiro.

segunda-feira, fevereiro 05, 2007

Al outro lado del rio...

Provavelmente, só um diretor como Walter Salles Júnior, nascido no Rio de Janeiro, poderia conceber um filme como “Diário de motocicleta” cuja principal caraterística é a completa ausência de pieguice.
Pieguice é uma palavra que não existe no idioma espanhol. A falta de algumas palavras em todas as línguas faz com que as populações incorram em erros estéticos e filosóficos lamentáveis. Certo que a palavra “sentimentaloide” poderia ser um equivalente no espanhol, entretanto, “piegas” possui uma força de síntese e autonomia que a faz funcionar como um “cluster”.
O apelo ao ridiculamente sentimental procura gerar no espectador uma sensação de autocomiseração bastante atrativa e perniciosa. A pieguice é uma marca de certas culturas. Considero, de forma geral, o caráter continental da América Hispânica como piegas.
Não é somente a língua que separa o Brasil de outros países da América do Sul .
Se é verdadeira a hipótese do poeta Federico Percibal que a origem da palavra caráter devemos buscá-la em outra palavra, “cratera”, ou seja, marca, pegada... então nosso caráter piegas pode nos conduzir por ruas estéticas sem saídas.
Estamos atavicamente caminhando sobre os vestígios do apelo ao sentimental fácil.
Entretanto há excepções... O compositor uruguaio Jorge Drexler fez o tema “Al outro lado del rio” do filme “Diário de motocicleta”. Ele supera, em inúmeros sentidos, estes rastos de pieguice continental. A canção é emocionante, harmônica e poeticamente. Na melodia, a fumaça da água calma, a coragem resignada de todos os povos indígenas e o senso de um espírito florescente da modernidade.

Procurar a florescência é maior do que procurar a felicidade. A florescência é um pacto elegante com a nossa decadência, é o reconhecimento honesto de todas as marcas, poeiras, falhas, penumbras, meios tons, e imperfeições do templo que estamos construindo. A superação do “caráter” nacional Latino-americano pasa pela superação da pieguice. Ainda temos muito que aprender do Brasil neste terreno.


Eladio Oduber


PS: Agradeço com alegria à amiga Ana Maria Monteiro pela oportunidade que me ofereceu em conhecer Jorge Drexler. Agradeço a Federico Percibal, por ser amigo, artista e uruguayo.


Dedico este texto com admiração al compinche espanhol Fernando Campos Leza, de la Rioja, nada piegas...


Imagem: Bird parte II / Eladio Oduber. janeiro de 2007

4 Comments:

Anonymous Manoela said...

Olá Eladio, cheguei aqui através da prof. Alice. Um grande abraço e até a próxima espiada!

10:28 PM  
Blogger Cinthia Oliveira e Eladio Oduber said...

Oi Manoela,

Muito obrigado pela sua visita. Por favor, seja sempre bem vinda.

abraços do Eladio

9:12 AM  
Blogger Federico said...

queridos Cinthia e Ela, acabei de chegar do faro do fin do mundo, e encontro meu nova ordem em seu blog -maravilha: poeta-tatu etimologico. Vou responder a isto em quanto o corpo atinga os niveis normales de sensatez.
Los quiero mucho

9:05 PM  
Blogger Marcos said...

Olá meu querido Eládio,
Enquanto nossa empresa continua no projeto (apesar de eu, Gláucia e Flávia estarmos fazendo uma "atividade empírica" trabalhando como consultores da Navegar) leio teus textos sempre tão inspiradores. Aproveitando a onda Jorge Drexler, não sei se conheces, mas escute tb Moska, que em seu último disco gravou duas canções de Drexler, tendo inclusive uma participação do mesmo nos dois últimos trabalhos do Uruguaio.
Abraços saudosos,
Marcos Fernandes

1:05 PM  

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