Sobre pesquisa e outras infâmias

Diário de campo de dois espectadores e um pródigo bucaneiro.

quinta-feira, janeiro 11, 2007

O profeta

Desprezava a sociologia por que não entendia qual era, ao final, a utilidade deste saber. Por isso, conformou-se com a definição escolar que a sociologia é a ciência que estuda a sociedade.
Não tinha nenhuma preocupação em esconder seu preconceito contra aqueles que ganham o sustento dentro de uma repartição pública. Não desejava para si esse papel de assalariado do governo e cultivava um sentimento hipócrita sobre o interesse pelo poder e pelo dinheiro.
Entretanto, em algum momento, viu-se obrigado a vender suas mais intimas convicções.
Aceitou o convite do diabo e sentou-se à mesa com uma colher de cabo curto. Não conseguia encará-lo face a face, e, ao mesmo tempo, tremia por algum reconhecimento.
Observou tudo com exagerada insistência e, assim, perdeu a sua dignidade de cavalheiro. Sabendo que, para perder uma coisa era necessário tê-la antes. Disto também não tinha certeza.
A água dos rios corre eterna e desordenadamente até as pontes serem feitas, depois, por ironia, as pontes tornam-se as referências. Então, “muita água correu debaixo das pontes” diz o povo.
“Cabe à gentalha fazer o trabalho sujo” escreveu Dostoievski. Tenho a impressão que o profeta procurou uma oportunidade para pulverizar seus patrocínadores e, com esta estratégia, respeitar-se a se mesmo. Lançar uma luz sobre sua existência.

O desprezo aristocrático que tinha cultivado pelo lucro lhe fez pensar que todo dinheiro ficava abaixo do seu caráter. Preferia não receber um salário do patrão imoral, porém, se um cliente imoral comprasse algum dos seus livros a consciência do Profeta estaria livre de culpas. As moedas do lacaio não tem máculas. O dinheiro ganho com a venda das nossas convicções é infáme. O dinheiro que compra as convicções dos outros é apenas, como dizia dona Gladys, o “óleo que afrouxa todas as porcas”, e coloca as lentilhas na mesa, que agora, para serem comidas, o Profeta não precisa mais de colheres cumpridas. O diabo não estava mais lá fora.

PS: A pesar da suspeita que o leitor possa ter sobre os traços autobiográficos deste texto devo esclarecer que as linhas estão “anti-dedicadas”, e, tentam descrever uma personagem nefasta da qual prefiro falar anonimamente e com a menor quantidade de cristianismo possível.

Eladio Oduber.

PS: muitos climas robei do “O jogador” F. Dostoievski.


Imágem: Homens em oração / Federico Percibal. Uruguay - Brasília. 2002.

2 Comments:

Blogger DiariodoMatheus said...

Eládio,

Gostei muito deste texto mas deparei-mei com um questionamento a respeito do homem e suas convicções. Não seria este diabo apenas um reflexo das nossas incertezas? Pode um homem morrer em nome de suas convicções?
Agir de forma preconceituosa com relação às repartições públicas é um juizo de valor, mas quando sentamos à mesa com o diabo, já não estamos tão certos disto. ( mais cruel e poderoso é o diabo à medida em que não temos certeza do que seja certo ou errado). Como não sabemos absolutamente a verdade do mundo só posso dizer que o diabo desaparecerá quando soubermos a verdade das coisas.A minha esperança é a de que este óleo não funcione em algum parafuso.

3:44 PM  
Blogger Unknown said...

Ela! tinha esquecido dessas pinturas, obrigadissimo
Tu texto inquieto, de esas cosas que uno lee por momentos con desconfianza.
Al ver el hastiante y cada vez más previsible efecto del dinero sobre las cosas y las personas, es fácil quedar un poco indiferente. Prefiero los influjos del entendimiento. Borges escribió "Oh Dicha de entender: mayor que la de imaginar o de sentir"
Los escritores son exigentísimos: exigen que el mundo "haga" y esperan que el mundo los reconozca sobre lo que "podrían hacer"

5:00 PM  

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