Sobre pesquisa e outras infâmias

Diário de campo de dois espectadores e um pródigo bucaneiro.

sábado, fevereiro 10, 2007

Vitrines

“Seus olhos são verdadeiramente lindos; que pena que você só esteja interessada no meu dinheiro”
Falei assim a semana passada a uma funcionária do Banco... que, de forma muito simpática, queria me vender um seguro de vida.
As categorias da ação social weberianas sobre fins, valores, tradição e afetividade foram todas relativizadas. A professora Valquiria Padilha (Unicamp) comenta uma entrevista feita pela revista Nova em 2001. Nela aparece o caso de uma mulher que ficou cega em conseqüência de uma doença congênita. Esta mulher relata que o que mais lamenta é não poder mais admirar as vitrines dos shopping centers.
As vezes, a madeira dos nossos valores vem da árvore dos fins alheios. Os shopping centers, tendo sido concebidos como catedrais do consumo, representam para seus “stake e stoke – holders usinas de lucros e para a maioria dos seus consumidores, uma experiência religiosa.
São locais em que se diminuíem os níveis de ansiedade e se tranqüiliza o psiquismo, como gosta de falar o amigo Thadeu de Jesus, consultor da América setentrional.
Nossa mandala psíquica funciona como uma caixa d’água. Uma semana cansativa de trabalho e alguns aborrecimentos do cotidiano familiar são suficientes para que a bóia da caixa trave. e a angustia comece a sair pelo ralo.
Então basta entrar nos templos do neo-protestantismo-pós-globalizado como o Wal-Mart e usar o cartão de crédito.
Nada há de novidade nisto. Não foi por outras razões que a igreja vendia indulgências antes e durante os tempos da Reforma.
Capitalismo ultra-moderno é isso aí. A decisão de ir aos lugares ultrapassa a finalidade de comprar alguma coisa. Não há fins determinados, se vai a eles porque é preciso procurar um sentido ao vazio existencial. Obedecer aos mandatos internos que impulsionam a comprar incondicionalmente e assim sentir o tépido abraço da felicidade.
A funcionária do Banco... sorriu para mim através das rachaduras da sua máscara comercial sorriu, ficou calada e deu-me as costas.
Eu mergulhei na porta giratória com detetor de metais em direção aos reflexos infinitos dos prédios espelhados no Centro Comercial Sul, sem um tostão no bolso, às 14:00 horas de um sol incompreensível.

Eladio Oduber

Conferir: Padilha, Valquiria. Shopping Center: a catedral das mercadorias. São Paulo: Boitempo, 2006

Imagem: Mulher / Eladio Oduber. Fev. 2007

3 Comments:

Anonymous Liss said...

Querido Eladio,
penso que além dos shoppings centers tem outros aspectos, as feiras, os mercados arabes,as lojinhas de 1,99, que mesmo sem vitrines, as mercadorias amontoadas de qualquer jeito levam milhares de pessoas a consumir. Concordo também que esse consumo está levendo nosso planeta para um caos, onde cada vez mais as pessoas procuram um sentido existencial, preenchendo não um vazio mas um tremendo buraco em suas almas. Falta amor, amizade e respeito nesse planeta.

9:59 AM  
Blogger Honneur said...

Caro Eládio,
Desde ontem estou protelando a leitura do blog. Agora, quando me preparava para dormir e fui desligar a "máquina", é que me dei conta de que estava devendo essa leitura.
Que forma interessante você encontrou para falar do consumismo compulsivo que a vida moderna nos impinge!
Gostei também da lembrança das indulgências medievais/renascentistas. Eram o "mensalão" da época, o que prova a "originalidade" dos mensaleiros atuais.
Grande abraço
Honneur

8:54 PM  
Anonymous antonio carlos bigonha said...

Eládio,

ao ler seu belo texto lembrei-me imediatamente de nossas corridas de 10 km e daquela pizza com coca-cola no shopping. Nós a fitar as luzes das vitrines, as mesas luzes ofuscantes do meio da tarde e a desejar as siluetas femininas intangíveis.

Abração,

Antonio Carlos Bigonha.

6:39 PM  

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