Sobre pesquisa e outras infâmias

Diário de campo de dois espectadores e um pródigo bucaneiro.

quinta-feira, fevereiro 22, 2007

Caro, Data, Vermibus

O Brasil “global” está assistindo o último Big Brother pelas razões de sempre: os assalariados do país adoram ver o ócio dos escolhidos.
Em um “post” anterior Cinthia Oliveira comentava isso mesmo em relação aos motivos pelos quais visitamos os zoológicos; gostamos de ver o ócio dos animais. Bem, a casa do BBB e os zoológicos tem muitos outros pontos em comum. Fazendo sempre a ressalva que os animais do Zoo não entraram nele, digamos assim, com tanto entuciasmo. Nisto, os dois recintos mostram uma clara diferencia. Paremos por aqui.
A questão é: ao redor de que “coisas” se aglutina a alma de uma nação?, Quem são os nossos símbolos morais?
José Martí dizia que, na história, alguns homens condensam a coragem que falta a muitos. A origem da palavra coragem é conhecida. “Actio cordis”; agir partindo do coração. E, como diz Nietzsche, “ali onde está teu tesouro, ali, está teu coração”. Cabe perguntar: quais são os tesouros do Brasil?, onde mora o coração dos brasileiros?
Graças a deus, não há consenso. Para muitos, o coração está nas Casas Bahia. Para outros, nas cordas do violão do Rafael Rabelo. Na cerveja gelada, na poesia de Adélia Prado, nas pernas de Luana Piovani, num filme de Guel Arraes, na amizade recém descoberta, nas palavras de Dalton Trevisan, no bairro, na esquina...como diria Rubén Blades .
E os nossos símbolos morais?, aqueles que emprestam o sentido para ficar em pê, dentro das calças, neste mundo?
De preferência escolhemos, alguém não muito longe de nós, do nosso círculo familiar. Parece não haver razões para confiar em líderes, políticos ou espirituais, que se entregam facilmente nos braços dos seus próprios narcisos.
Ontem, numa agradável tarde de café e fumo, o amigo Fernando Leza abriu alguns dos seus cofres. Falou da Espanha e da Alemanha que não escondem seus mortos, falou da Cantábria, dos velhos amigos, do seu país branco e longícuo que recebeu arrasado o corpo e o sangue do Garcia Lorca.
Juro que sem estas tardes estaria entregando, de bandeja, minha carne aos vermes.

Abraços do Eladio

PS: Salud, velho amigo Bigonha. Gosto de compartilhar com você alguns símbolos morais deste e outros mundos possíveis.

Imagem: Rachael / Eladio Oduber. Fev. 2007




4 Comments:

Anonymous Antonio Carlos Bigonha said...

Caro Eládio,
acredito que para muitos de nós o símbolo moral está no novo Vectra ou no Honda Civic com câmbio automático no volante. É verdade, para muitos de nós a satisfação do consumo de bens maravilhosos substituiu a necessidade da moral e da arte. Os objetos de consumo são as novas maravilhas e os shoppings as novas catedrais de deslumbramento. Será por isso que até o teatro e a música, agora, estão nas praças de alimentação?
Você, querido amigo, certamente é uma reserva moral para mim. Toda vez que me esqueço do lirismo venho ler seu blog e recobro minha ilusão. Parece difícil conciliar uma vida sôfrega em busca da acumulação material com o hábito saudável de cultivar bons amigos e boas idéias. Qual será o ponto médio? Somente um chá poderá aplacar essa dúvida...
Abraços,
Antonio Carlos Bigonha.

4:26 PM  
Blogger judith said...

Meus simbolos morais são difíceis de nomear de bate pronto - isso significa que voces me pegaram num vazio sem explicação....vou pensar seriamente sobre isso ainda hoje , na hora do relaxamento... obrigada por "lembrar" essas matérias super importantes.
AH!!! lendo os comentários do Antonio Carlos devo publicar que também pra mim voce é reserva moral

4:34 PM  
Blogger Adalberto said...

Oi Eladio, daqui de Münster, longe das cousas do Brazil, eh bom ouvir a sua voz por detras do seu texto! o Big Brother da Alemanha nao eh diferente, talvez ate seja pior. Aqui esta em discussao a "Second life". Voces ja viram que coisa medonha?
abrazon!

4:41 PM  
Blogger Honneur said...

Caro Eládio,
Quando eu era bem pequeno – e isso foi há muito tempo – estudava em uma escola pública em que todo santo dia havia formatura matinal para conferir as ordens e para cantar um hino patriótico (Hino Nacional - Hino à Bandeira - Hino de Minas Gerais).
Era emocionante cantar o hino enquanto alguém hasteava a bandeira.
Depois o diretor fazia um discurso em que, normalmente, pedia para que respeitássemos os mais velhos; que não déssemos desgostos aos pais e às mães; que estudássemos com afinco; que fôssemos honestos em nossas relações; que trabalhássemos...
Não sei se isso ajudava a criar "valores"; a criar uma espécie de "inconsciente coletivo" que nos levava a querer sempre participar daquelas atividades e a acreditar nelas.
Depois, já professor, vi muita coisa mudando: cantar o Hino Nacional passou a ser pecado mortal; colar nas provas, um recurso válido para quem não teve tempo de estudar, porque teve de sair no "pacotão"... E por aí vai.
Parece que fomos nos "americanalhando" e passamos a copiar comportamentos que não nos dizem nada enquanto povo. Incluo aqui os BBBs, mas também os JÔs (cópia piorada de um péssimo "talk show") e chegamos ao ponto em que estamos.
Ainda bem que existem os Eládios da vida, para dar uma balançada geral e lembrar-nos de coisas básicas, mas normalmente esquecidas.
Grande e fraternal abraço

10:16 PM  

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