Sobre pesquisa e outras infâmias

Diário de campo de dois espectadores e um pródigo bucaneiro.

segunda-feira, novembro 28, 2005

Os Imponderáveis da chama e a borboleta: como modificar o passado entregando nossas vidas a um bom pintor ou flores vermelhas para uma dançarina.

“A verdade não nos torna ricos porém, nos torna livres”... Afirma Will Durant na sua História da Filosofia.
Uma frase atrativa e perigosa como é para uma borboleta a chama de uma vela. Perigosa para uma borboleta que sonha ser filósofo ou para um filósofo que sonha ser borboleta. (Zhang-Zi século IV d. C.)

O risco da frase de Durant está nas três colunas em que se apoia: verdade, riqueza e liberdade. Cada uma destas idéias são linhas do nosso horizonte cultural cuja diabólica utilidade é obrigar-nos a errar eternamente.

Neste momento lembro-me do ano 1985, depois de uma profunda decepção ao não poder gravar um disco, me afastei completamente do piano por um período de dois anos.

Posteriormente, morando numa reserva indígena, uma noite escutei acordes de um piano numa música que tocava num radinho de pilhas. Foi como um “chamado” que acendeu um “mandato interno” ( Max Weber).

Descobrí que o som do piano formava parte das minhas “verdades internas”, thelos, princípios, são mais o menos a mesma coisa. Verdades internas mil vezes difíceis de identificar...

Assim entendi o lugar comum que se conhece entre os músicos e outros artistas... “abandonei o piano, porém, ele não me abandonou”.

“Tropeçamos como bêbados nas dobras da nossa auto consciência” diz Peter Berger quando compara nossa vida a uma grande tela que pintamos ao longo da existência sem que possamos, a maior parte do tempo, ficar distantes para observá-la. Com o passar dos anos esta pintura adquire maior clareza ou torna-se mais confusa.

Gertrude Stein não gostou do retrato que encomendou a Picasso porque não o achou parecido com ela. Picasso respondeu: “não se preocupe, com o passar dos anos ele irá, cada vez mais, se parecendo a você...”

Gostaría as vezes de encomendar a tela da minha vida a um bom pintor...algumas coisas podem ser terceirizadas. As vezes corremos o risco de encomendar a tela da nossas vidas a artistas amadores, daí a origem de numerosas frustrações.

Em Caracas, também no ano de 1985, sem perspectivas de emprego e sem dinheiro, comprei, com os últimos vinte contos que me restavam, flores vermelhas para uma dançarina com a qual não tinha futuro. Então fiz outra descoberta: gosto de vestir meu presente com digna impulsividade para poder me orgulhar dele quando virar passado.

Peço perdão aos meus distintos leitores pela confissão destas duas verdades intimas. Os acordes do piano e a digna impulsividade do presente.

Tzvetan Todorov fala sobre a “verdade adequação” e a “verdade desvendamento”. A primeira trabalha com o “tudo ou nada” a segunda com o “mais ou menos”.

Por exemplo: não posso negar que nasci na Venezuela, porém, posso modificar o significado que esta circunstância tem para mim.

Ainda bem que podemos mudar pelo menos nosso “passado / desvendamento”, aquele que pertence ao território das interpretações.

No final deste texto, a frase de Will Durant não mais se mostra ameaçadora. Se formos complacentes ou resignados, poderemos reconhecer nossas verdades internas, assim, estaremos, em parte, livres da angústia das escolhas juvenis.

Certamente, esta maneira de pensar é uma forma, tal vez ingênua, de imaginar que algo de permanente mora dentro de nós. Devo dizer para meus amigos amantes dos imponderáveis da vida flutuante que admiramos alguns seres criativos porque identificamos neles um âmago preservado.

Foi emocionantei ver, a semana passada, a Chick Korea na T.V, um pouco mais gordo e mais velho, improvisando no piano e desabrochando suas verdades internas que ha tantos anos nos influenciam.

Abraços do Eladio Oduber e Cinthia Oliveira

Conferir:

DURANT W. História da Filosofia. São Paulo: Editora Nova Cultural, 2000.
TODOROV, Tzvetan. (1989) Fictions et vérites. L'Homme - Revue française d'Anthropologie, n° 111-112

Imagem: Gerturde Stein / Picasso - 1906

3 Comments:

Anonymous Carlos Mendonça said...

Professor Eladio, como sempre, muito sábio em suas reflexões. Que a filicidade seja sua amiga e companheira de todas as horas.

2:24 AM  
Anonymous Anônimo said...

Querido Eladio,
quando o vi tocar pela primeira vez no "Carpe Diem", vi uma alma repleta de muito mais que felicidade, cheia de um enorme prazer naquilo que estava fazendo. Ao ouvir os primeiros acordes, fiquei toda arrepiada de imensa emoção. Senti que vinha da mais profunda verdade interna que uma pessoa pode transmitir e são poucas as pessoas que conseguem fazer isso e você faz muito bem , principalmente quando está a frente de um piano. É maravilhoso ve-lo tocar. Passaria dias, meses anos olhando você tocando numa maravilhosa transformação de você com você mesmo. Você se mostra com liberdade, riqueza e verdade.
Algo mora dentro de nós sim, e é essa liberdade de ser no ser.
Adoraria ver você tocando mais, muto mais de forma a espalhar a alegria que exala ao tocar. precisamos disso o mundo precisa de pessoas assim como você verdadeira com suas ideias e com seu thelos.A cidade precisa da cor da sua muscica do sabor do seu sorrisso e da grandeza da sua essencia.
Beijos,

10:18 AM  
Anonymous leoh (curtindo sua aposentadoria da vida de leitor - por invalidez) said...

sinto que a música é para você o que a retórica é para mim: um oceano. saímos dele, mas ele não sai de nós. quanta criatividade há em um universo finito?
certamente não é infinita. é o que podemos carregar conosco. quantas grandes idéias temos durante toda nossa vida? no melhor dos mundos possíveis... apenas uma! seria ela original? brindo ao não. quantas verdades podemos descobrir? nenhuma. apenas reconhecemos suas roupas. ela é somente um cabide. um utensílio doméstico para pendurarmos as mais idiotas idéias. hoje mais cedo encontrei alguns pensadores nômades. foi incrível como batiam na mesma tecla. nem mesmo podiam imaginar que poderiam usar a madeira do piano para batucar. nômades que correm atrás do rabo dos outros. a única coisa que sabiam dizer era: nosso pensamento é nômade. eu os perguntava: sim, e quais lugares já visitaram? suas respostas eram as mesmas de turístas que visitam lugares para rever aquilo que já viram em panfletos de agências de viagens. era deleuze pra cá. guatarri para lá. nietzsche acolá. blá, blá, blá. porra, o mundo não é somente leitura. como alemães e franceses querem. o mundo não é ordem e progresso. como norte americanos querem. e nós sudacas, o quê queremos? onde estão nossas verdades absurdas? reviremos nossas vísceras! quem sabe não nos movemos nômades após alguma indigestão? sejamos pelo menos uma dançarina que ganha flores vermelhas!

2:30 AM  

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