Sobre pesquisa e outras infâmias

Diário de campo de dois espectadores e um pródigo bucaneiro.

sábado, novembro 05, 2005

O paraguaizinho das metáforas e algumas pornografias adjacentes


“O braço de esta mulher está muito cumprido” comentou um marchand na presença de Matisse. O pintor respondeu: “isto não é uma mulher, é uma pintura...”. O professor Eurico Cursino dos Santos nas nossas aulas de Teorias Sociológicas citando a Jorge Luis Borges contou a história de um rei que encomenda a seus cartógrafos um mapa bem preciso do reino. Os cartógrafos trouxeram uma, duas, três versões que foram rejeitadas pelo monarca porque, segundo ele, faltavam, nos mapas, inúmeros detalhes como árvores, casas, pedras, etc. A certa altura os cartógrafos perguntaram-lhe porque insistia em ter um mapa tão detalhado do reino? porque não ficava com o reino “real”?

É confortável saber que a falta de habilidade para lidar com as metáforas independe da época e das profissões. Gosto de chamar esta atitude de cretinismo metafórico ou “visão pornográfica do mundo”. Garcia Marques numa oportunidade comentou que seu desgosto com os filmes pornô era produto da impossibilidade de encontrar neles alguma metáfora. As coisas obvias são pornográficas porque estão atreladas à sua própria etimologia: são violentamente visíveis.

A hegemonia da visão pornográfica sobre o mundo é cíclica, podemos encontrar um dos seus registros mas antigos em Aristóteles e seu interesse em resgatar os sentidos como garantia de conhecimento do mundo. (Neste ponto, o filósofo “bucaneiro” poderia me acudir) Somente consigo ver a próxima conquista da pornografia intelectual nos pensamentos de Francis Bacon e Martin Luthero. No século XVI, mais precisamente no ano de 1529 João Ecolampadius e Martin Luthero debateram durante dois longos dias se o corpo de Cristo estava efetivamente presente ou não numa coisa material como o pão. O argumento de Lutero foi: “se está escrito ‘este é meu corpo’ então é porque o pão é mesmo o corpo de Deus.

O filósofo anônimo do palácio do Itamarati diria : “quando o animal é de raça respeite-lhe o coice” O ethos pornográfico fez sua aparição na frase de Benjamin Franklin “tempo é dinheiro” resumindo a maneira como os homens (não as mulheres) se organizaram para viver no chamado mundo moderno. Logo se seguiram as guerras mundiais, pornografias trágicas de um mundo que tinha perdido o sentido. Estas guerras trouxeram consigo a disseminação da ética pornográfica e utilitarista centrada no indivíduo racionalista e “maximizador” dos seus interesses.

Quando pensamos em pesquisa, vemos que a pornografia adquiriu sua hegemonia na Escola de Chicago a partir dos anos 30 quando os quantitativistas tomaram o poder da sociologia qualitativa que reinava desde o século XIX. Se observamos os manuais de pesquisa aplicada podemos conferir que a pesquisa qualitativa tem sempre o status de pesquisa “exploratória”, e tem como principal objetivo prestar subsídios aos levantamentos quantitativos, estes são denominados “conclusivos”... isto é, estudos que dão a palavra final. Não se trata de exumar o cadáver da polêmica quali. X quanti. estas reflexões são para lembrar aos nossos alunos o ciclo metafórico – pornográfico da história do conhecimento.

Num desses dias uma amiga me confessou que seu primeiro matrimonio naufragou uma tarde em que, emocionada, olhando um pôr de sol seu marido lhe comentou que achava tudo aquilo muito normal... A “objetividade” da nossa época delata a impotência de imaginar um mundo diferente daquele que estamos acostumados a ver e viver. A pornografia nos seduz a “lustrar com orgulho nossas próprias correntes ”

Os espíritos pornográficos se esquecem que o mundo objetivo em algum momento já fez parte da esfera dos sonhos. Os desejos de conquistar “coisas materializadas” , casas, carros, lap-tops e melhores salários não são rigorosamente sonhos. Estes são um tipo específico de fome ou saudades de um “cosmos” por outros construído, a maioria das vezes muito antes de que chegássemos a este mundo. Em quanto a pornografia é a saudade do que está materializado os sonhos são a metáfora da existência.

Bom sono e bons sonhos.

Eladio Oduber e Cinthia Oliveira.

Conferir:

COULON, Alain. A escola de Chicago. São Paulo: Papirus, 1995.

Imagem: Matisse / Madame

2 Comments:

Anonymous Anônimo said...

não entendi o que significa "o paraguaizinho" no título. et pour cause.
el alberto del molino

2:48 AM  
Anonymous leoh, do navio dos prazeres impúdicos said...

pornografia... está aí um assunto que amo. sim, por todos estes mares... o que vi foram coisas tão simples, porém quantos véus colocram nelas... as capitanias sedentárias e seus pudores. ah, quanta perversidade. toda arte, filosofia, religião, ciência, senso comum é uma tentativa de... colocar calcinhas, cuecas, cintos de castidades, etc. na coisa em si. sim! a coisa em si está lá ou ereta, ou molhada, ou a espera. eis a tara invertida de templos em tempos e tempos. Kant, morreu virgem. dizia que todos nós nunca teríamos acesso à coisa em si. já o velho marques de sade... não! explorou todas as nossas aberturas. se deliciou com toda coisa em si que pôde. põs às claras a verdade. esta sempre pronta a ser desvelada. deflorada. ah, quantos métodos, dogmas, artimanhas, piruetas púdicas para exaltar um voyerismo às avessas... quando a coisas é simples e direta, assim como a sabedoria do funk. estes novos/as despudorados/as que tiram os véus, calcinhas, cuecas de maya e nos mostram aquilo que estamos sempre a procura! aquilo que filmes pornográfcos mostram tão bem e em closes, com todos seus detalhes, sem mapas, nem representações. é uma pena que neles não possamos sentir os cheiros e os gostos das coisas em si.

4:41 PM  

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