Sobre pesquisa e outras infâmias

Diário de campo de dois espectadores e um pródigo bucaneiro.

domingo, novembro 20, 2005

Logos, leghein, analektos: reunir, recolher, juntar

Aprendi com o filósofo italiano Remo Bodei que o contrário da beleza não é a feiura e sim a insignificância. Esta distinção é emocionante na medida em que abre possibilidades de entendimento quanto às nossas escolhas éticas que, como se sabe são, ao final, escolhas estéticas. Quando observamos as saídas éticas que povos diferentes do nosso dão aos seus conflitos, provavelmente, ficamos chocados, em primeiro lugar com os arranjos estéticos.

É o caso dos “mestres de lança” do povo Dinka que, chegada determinada idade, são enterrados vivos com o objetivo de não perder a chama viva que perpetua a cultura. Por trás da dicotomia belo X insignificante está o raciocínio do Platão: “amar coisas belas não é amar a beleza”.

A beleza na idéia de Remo Bodei seria então aquilo que atribui um sentido à existência, que nos mostra um caminho. Estou me referindo a experiência religiosa de admirar, por exemplo, uma escultura do Henry Moore? Parece que tudo faz sentido. A existência se justifica em se mesma. Em contraposição, aquilo que nos transmite um sentimento fragmentado ou imaturo pode não ter significados relevantes para nós. Evidentemente estas são experiências rigorosamente culturais .

Um exemplo: minha relação com a estética da nova ponte de Brasília tem sido muito ambígua. Num primeiro momento fiquei revoltado, achei que a ponte não combinava com Brasília. Depois fui aceitando-a, e até considerando certa beleza da sua arquitetura. Hoje sei que esta ponte entrou em cena de forma industriosa e materialista pisando no escrúpulo das proporções. Seus criadores não se abstiveram do prazer do adultério e quebraram a etiqueta da cidade.

A nova ponte é uma máquina torpe quando comparada com a ponte anterior concebida por Oscar Niemeyer. Esta sim, é uma dançarina translúcida que descansa e brinca.

São escolhas éticas, são escolhas estéticas...

A ponte nova é calvinista, diabólica, tecnológica, moralista e insignificante.

A ponte do Niemeyer é socrática, simbólica, artística, ética e bela.


Abraços a todos do Eladio e Cinthia

Para observar:

Ponte nova (Juscelino Kubitscheck):

http://www.geocities.com/TheTropics/3416/ponte_jk.htm http://www.geocities.com/TheTropics/3416/ponte2.jpg

Ponte do Niemeyer ( Costa e Silva);

http://www.geocities.com/TheTropics/3416/segunda_ponte.jpg www.brasiliense.hpg.ig.com.br/images/Ponte.jpg PS:

Nestas fotos, você pode achar a ponte nova mais bonita. Depois da primeira impressão pense na imortalidade da alma e reveja as fotos.

PS: Além de tudo, a ponte nova é egocéntrica, quando a atravessamos ficamos deslumbrados com ela mesma. Quando atravessamos a ponte do Niemeyer olhamos o Lago Paranoá.

Imagem: Warm up-Degas

3 Comments:

Anonymous Anônimo said...

oi eládio, sinto em discordar, mas,na minha modesta opinião,a nova ponte é mais bonita. a do niemayer - como quase tudo dele - é funcional, bauhaus, brasília, correta, discreta. a nova ponte (sobretudo quando vista em movimento, passando-se por ela -- o que constitui sua verdadeira imagem, e não essa foto tomada desse`ângulo) me agrade pelo exagero dos arcos retorcidos e pela curva generosa e ancha do seu traçado. para mim a ponto de niemayer serve para passar sobre, de um lado a outro. a ponte nova convida ao retorno. claro, não é nada funcional, foi um desperdício, poderia ter sido feita sem os arcos. mas a beleza não é, segundo kant, a finalidade sem fim?

a propósito, acaba de sair um dossiê ponge na www.revistacriterio.nom.br

abrazón
adalberto

3:30 PM  
Anonymous Liss Mary said...

Querido Eladio,

fazem muitos anos que pratico um ritual diário de meditação Zen, que desenvolvi nos anos que morei no Asharam do Osho na India.
Através dessa prática milenar,comecei a mudar minha visão do que e belo, da beleza, da estética, apenas olho e sinto, sem palavras sem julgamentos ou críticas. Essas coisas apenas estão ai,do jeito que são e o que nos move a dar um significado a elas e julga-las é como disse Kant " que não vemos as coisas como elas são, mas como nós somos"....
o que criticar? Por que ética e estetica?
Assim na minha concepçaõ Zen de viver, essa discusão de qual ponte é mais bonita me soa uma ligação muito forte com as coisas materiais, é muito apego a razão.
A vida é mais...Os sentimentos de sentir transcende a ética e a estética
Beijos

4:38 PM  
Anonymous leoh, (bêbado em algum beco) said...

será que há pelo menos um mundo para além dos valores? para além das escolhas pseudonômades? insignificâncias. indiferenças. ou a arte de abandonar aquilo que se despresa? rumo para além da crítica! é onde quero aportar. ou, a única crítica possível: o abandono? sim! eis o saltar. penso que a insignificância és muito poderosa. assim como a indiferença. já o abandono. és força. sentir insignificante - poder da impotência. sentir indiferença. poder do não agir. sentir abandonado/a. força liberada. liberdade caprichosa. sem as condições necessárias para fazer algo. quanta luxúria. simplesmente se faz. quanta loucura. assim como a alegria. esta força maior. desvairada. que nada resiste a ela. dar uma retumbante gargalhada. seguir e viver. não ficar e morrer. a força contra os poderes. violência amoral contra imorais e moralistas. contra apreciadores de arte e artistas. é, acho que agora vou beber um barril de vinho e vomitar na próxima arquitetura de brasília. amiga cinthia e amigo eladio não querem me acompanhar?

1:49 AM  

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