Sobre pesquisa e outras infâmias

Diário de campo de dois espectadores e um pródigo bucaneiro.

quinta-feira, novembro 17, 2005

Exitium: missa da perdição


Os amigos do pintor impressionista Edouard Manet fizeram uma “vaca” para poder alugar um pedaço de parede no Louvre de Paris. O quadro do Manet que eles queriam expor foi este que vocês estão vendo do lado direito do texto. Se chama Olympia. Esta tela da cortesã nua e sua mucama negra escandalizou tanto ao público do Louvre, que na primeira mostra as pessoas cuspiram-na e apagaram guimbas de cigarro no quadro. Para poder permanecer no museu, Olympia teve que ser pendurada a dois metros do chão, longe da ira do público espectador.

Quinze séculos antes da Olympia ser vilipendiada, Carlos Magno conquistava saxões rebeldes e os fazia escolher entre o batismo e a execução imediata. Num descuido mandou decapitar quatro mil quinhentos numa manhã. O mesmo fez Constantino I passando pelo fio da espada três mil cristãos que adotaram a postura doutrinária “unitarista” de que, “embora Jesus fosse o filho de Deus, ele não era divino”. Não há salvação fora dos cânones mentais que dominam uma época. As populações européias ficaram séculos sendo treinadas dentro do radicalismo brutal.

E estas formas de agir vieram com eles no processo de colonização do novo mundo. Assim dizimaram toda a população indígena da ilha da Cuba e utilizaram cães ferozes na caça de índios em terra firme. O colonizador se leva muito a sério e sempre tomou partido pelas coisas que lhe interessam. Na década de 20 do século XX, a United Fruit Compani, apoiou o massacre de centenas de camponeses colombianos que faziam greve por melhores condições de trabalho. Nunca se soube quantos cadáveres foram retirados das plantações nos vagões de trem da empresa bananeira.

Quando nossa América alcançou uma fisionomia rural, já era tarde e tivemos que migrar para as cidades. A perniciosa oposição Rural – Urbano foi insuflada pela inteligentzia política e acadêmica local. Ficou vergonhoso ter uma vida agendada pelo sino da igreja, a existência em função da passagem das estações tinha que ser superada. Viramos homens e mulheres “genêricos” e podíamos vender nosso trabalho para qualquer patrão. Saimos do isolamento e ao mesmo tempo abortamos a possibilidade de realizar obras perfeitas. Assim como muitas das catedrais medievais que levaram 300 ou 400 anos para serem terminadas. Ou os dentes de marfim talhados durante gerações por famílias de artistas chineses. Os arquitetos ou escultores destas obras tinham um objetivo maior do que as próprias obras... nós aprendemos em todos estes séculos a glorificar pessoas e não realizações.

Sábado pela manhã, Cinthia e eu, nas Lojas Americanas, tentamos escolher um jogo de talheres que fossem bonitos e duráveis. Pela noite, o Jornal Nacional noticiou que a indústria do aço que fabrica talheres vai de vento em popa. Sociólogos e antropólogos também mergulham no fato social como pesados cadáveres.

Nas primeiras décadas do século XX, nos Estados Unidos, os cientistas sociais discutiam, sem que isto resultasse em nenhuma decapitação, se a pesquisa qualitativa era mais poderosa do que a quantitativa, e Ernest Dichter falava para Alfred Politz:” Mas, Alfred, 10 mil vezes nada é ainda nada”. A estátua de São Pedro no Vaticano tem os pês gastos pelos beijos e toques dos devotos.

Abraços do Eladio e Cinthia

Conferir:

MALHOTRA, Naresh K. Pesquisa de Marketing: uma orientação aplicada. 3ed.Porto Alegre: Bookman, 2001.

MANCHESTER, W. Fogo sobre a terra: a mentalidade medieval e o renascimento. Rio de Janeiro: Ediouro, 2004.

Imagem: E. Manet / Olympia

3 Comments:

Blogger Nina Barki said...

Este comentário foi removido por um administrador do blog.

12:03 AM  
Blogger Nina Barki said...

Sabe o q eu mais gosto nos blogs?
De ver a progressão natural dos textos e comentários.
Já notou q vc vem "citando" seu próprio blog? Qdo vc fala das igrejas q levaram 300 anos para serem construídas, está trazendo de volta um assunto já abordado por aqui.
Acho isso lindo!
Parabéns pelo sempre lindo blog, pra vc e pra Cinthia.
Beijos

12:04 AM  
Anonymous leoh (de uma festa com gebusis, ciganos, jalialis, tuposas, rendilles e kariekas) said...

ah, esses seres de deus único... diziam: "amai o próximo". o quão próximo deveríamos estar para sermos amados? o que vi em toda história foi: "guerreai com próximo. quão próximo para que minha espada alcance suas goelas. se estiveres longe vou até você". eu sendo um bucaneiro até sinto inveja de tanto sangue e pilhagem. dessa missa de merda dá-se a civilização! esta inventou todos os governos também de merda. a séculos que nenhum vandalismo dígno conseguiu fazê-la dar um passo atrás. esta merda toda se espalhou. ocupou cada centímetro geográfico e existencial. irreverssível marcha: mais religiões, mais revoluções, mais drogas, mais canais de televisão, mais esportes, mais bingos, mais pornografias, mais loterias, mais acesso à internet, mais escolas... ufa! a vida é mesmo uma diversão incessante, não é mesmo? Não! se não podemos voltar a qualquer primitivismo nostálgico, ou mesmo, rumar a algum futuro harmonioso... digo: nenhum invento é insuperável para sempre!!! a vida pode ser muito mais incrível fora dessa civilização de merda!

2:04 AM  

Postar um comentário

<< Home