Sobre pesquisa e outras infâmias

Diário de campo de dois espectadores e um pródigo bucaneiro.

sexta-feira, novembro 11, 2005

O fígado do Prometeu tinha um gosto amargo




“Sou condenado a ser livre” ou sou condenado a ter saudades de ser livre? Há quem diga que a infância não é uma fase de liberdade e sim de profunda repressão. Contrariando de alguma forma à psicanálise que situa o apogeu do princípio do prazer na idade tenra. Uma coisa parece certa: a infância é uma idade da empolgação com coisas que depois perdem a importância. Nunca esquecerei do rosto enebriado da Ana Cecília olhando para o saquinho de balas. Quero viver e morrer com essa imagem.
Então, a realidade não é aquilo que desejamos? “Meu coração tem catedrais imensas” é uma frase que comunica os restos de irrealidade que permanecem dentro de nós. Esta pode ser a origem do impulso que nos impele a querer nos sentirmos criativos. Assistir a filmes, dirigir em alta velocidade, dormir, mascar chiclete, fazer sexo, segundo alguns psicólogos, são sinais de volta a esse estado de criatividade original.
Então, além da arte, o que pode nos salvar? Quem sabe adquirir uma boa dose de senso de irrealidade seja uma saída.
Qual foi o momento mais feliz da suas vidas? pergunto aos meus alunos. Dificilmente eles falam do trabalho ou da escola. Bertrand Russell dizia que somente quem manda gosta de trabalhar ...na minha opinião, isso vale para a escola também.
Por isto, as programações de TV estão voltadas para situações que desejamos profundamente: apaixonar-nos, viajar a lugares remotos próximos à natureza; em suma, situações que retiram o peso das imposições urbanas. Aceitamos com tal resignação os objetivos da cidade que comemoramos os paliativos da nossa própria escravidão.
Exemplo: ficamos felizes porque o celular existe para assim poder saber onde estão nossos filhos. É uma felicidade perniciosa esta. Deveríamos um dia comemorar o fim da insegurança nas cidades e não precisar mais de celulares. Nossa criatividade é canalizada para a esfera do consumo. Afogamos a saudade de sermos criativos adquirindo bens a partir de 1,99...
Os criminosos, os infratores querem experimentar as mesmas sensações. Eles roubam nossos carros, nossos relógios porque, da mesma forma, aceitaram os objetivos da vida em cidade.
Nossa revolta com o crime não somente decorre da violência a que somos submetidos. Ficamos irados pela lembrança de termos investido horas de desprazer para adquirir tais objetos. No fundo sentimos também inveja da rapidez com que o ladrão realiza seus “sonhos”. O crime faz com que o criminoso se sinta vivo, criativo, auto-inebriado. É o mesmo ópio que tomou conta da alma de Prometeu que roubando o fogo experimentou os deliciosos imperativos da criatividade. Os desejos quando acorrentados exalam humores pútridos, nossas cavidades se enchem de pestilência. O fígado de Prometeu não foi um prato apetitoso nem para a ave de rapina.
O que você prefere de presente de aniversário um poema ou um home teather ?


Beijos do Eladio e Cinthia

Conferir: CAROTENUTO, Aldo. "Sonho e Realidade" in:

De MASI, Domenico, PEPE Dunia, As palavras no tempo. Rio de Janeiro: José Olympio, 2003.
Imagem: www.ufrgs.br

Este texto é dedicado com muito carinho a minha amiga Liss Mary Fraga

2 Comments:

Anonymous Liss said...

Querido Eladio,
Sempre é um prazer ler seus artigos e na verdade, aprendo muitas coisas com suas palavras, que de alguma forma me fazem com que eu reflita e me permita viajar nos temas escolhidos por você.
Do mais profundo dos meus sentimentos agradeço a dedicação do texto.
Sua sempre amiga,
Liss

1:43 AM  
Anonymous leoh (do jardim da infância selvagem) said...

certa vez roubei o fígado do prometeu. quis trocá-lo pelo meu. pois nem mais saudades pudia sentir por ele. mas embriagado permaneci. ser sóbrio? ou ser sério? brincar! sim, brinquemos! se querem que consumamos, pois bem, é o que farei. enebriado pelas belas imagens das propagandas. brincarei. quero tudo o que me oferecem. mas, não pagarei. brincarei. usarei créditos, cheques e investimentos. serei magnata. porém, sem espécie. sim! brincarei com as leis. o crime compensa! como tu disses, caro bucaneiro, o crime nos trás a criatividade de volta. exige de nós estraégias malandras. eis o que nos seduz. o contrário exigido pela vida adulta e seus labores. minha verdade absurda me toma e lembro como foi bom matar meus pais. não fiz como aquela garota inimiga pública da publicidade. fiz moralmente. quando não precisei mais do dinheiro deles. quando não precisei mais sentir culpado tendo eles virtualmente em minha mente. quando eles passaram a figurar uma figura disforme e pálida de divindades. preferi os demônios. belos corpinhos infantis com belos espíritos selvagens. brinquemos com o fogo roubado. certamente não faremos xixi na cama quando formos dormir.

5:26 PM  

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