Sobre pesquisa e outras infâmias

Diário de campo de dois espectadores e um pródigo bucaneiro.

segunda-feira, outubro 03, 2005

Por que a objetividade científica tem aroma de trabalho assalariado?


O sociólogo Edward Shils, na década de 60 do século XX, Afirmou que a universidade tinha como tarefa urgente salvar a alma. Eu me perguntei que alma? Com um pouco de curiosidade sobre o tema descobri que a “alma” a que se referia Shils era a da academia “humboldtiana”. Em outras palavras, a universidade devia salvar o espírito aristotélico, monástico, ou, porque não; enciclopedista da relação com o conhecimento. Este estilo de estudar e produzir idéias também foi abraçado, nos séculos XVIII e XIX, pelas aristocracias americanas. Por exemplo, Simón Bolivar, aos 14 anos, adotou Simón Rodriguez como seu novo tutor, este último limitou as leituras do seu pupilo a poucos autores clássicos e dedicou o resto do tempo a passeios a cavalo, banhos de rio e longas caminhadas didáticas pelas matas venezuelanas. Rotinas parecidas já tinham os amigos de Paul-Henry Tiry d’ Holbach (1723 – 1789) Barão parvenu. Este mecenas muito contribui com a construção da Encyclopedie, através dos convites ao estreito circulo de amigos que desenvolviam semanalmente, na mansão de le Granval, a seguinte rotina:
a) os amigos chegavam 5ta feira a noite e cada um estudava, por conta própria, das seis da manhã de sexta até uma da tarde;
b) às 13:30 todos reuniam-se para almoçar;
c) das 15:00 ao por do sol davam passeios pelos bosques conversando sobre filosofia e política;
d) ao cair da tarde, voltavam a casa para jantar, ouvir música e jogar cartas. Deitavam tarde da noite;
e) no dia seguinte recomeçavam tudo de novo.
Foram rituais como estes que contribuíram para que Diderot e d’ Alembert construíssem uma obra de 35 volumes que levou 30 anos para ser terminada. Quem tiver a oportunidade de conhecer alguns verbetes da Encyclopedie notará que as especulações iluministas ainda mantém a fragrância de um subjetivismo filosófico que, de qualquer forma, desafiou o “despotismo da emotividade, da superstição e da magia” religiosa. Foram em “dias” assim como estes onde os enciclopedistas banharam suas idéias com o perfume do ócio aristocrático. Diferente do cheiro de trabalho assalariado com que nascem nossas pesquisas virtuosas de objetividade científica.

Desejo bon sono e bons sonhos a todos.

Eladio Oduber

Conferir:
De MASI, Domenico, PEPE Dunia, As palavras no tempo. Rio de Janeiro: José Olympio, 2003.
SHILS, E. The Calling of Education. Chicago: The University of Chicago Press, 1997.

3 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Queridos Cinthia e Eladio, é um verdadeiro deleite ler o que vocês escrevem, particularmente quando se está envolvida em pesquisas, como é o meu caso.
Parece que tudo fica mais leve.
Só me rebelo um pouco em, após a leitura de hoje, ter que conciliar a luta pela sobrevivência material com as investigações ditas científicas...
Um abraço, Graça Monteiro.

2:55 PM  
Blogger Nina Barki said...

Pra variar, saio daqui mais confusa do q entrei... mas muito feliz de ter q refletir sobre mais um assunto maravilhoso!
Beijo

5:49 PM  
Anonymous Leoh (cruzando a noite com vagabundos) said...

O valor trabalho... que raios de valor é esse? Para preservar a vida devemos arruiná-la? Ya basta! Risco consentido! Risco desejado! Sim! Negar o trabalho! Negar a razão! Inclinar-se para o jogo! Por uma aristocracia anárquica! Onde ser um rei anarquista é o jogo! Depois, é claro, de toda competição, de todo acaso, de todo simulacro, de toda vertigem! Eis a alma em matéria: plágio! Não nascemos com alma. A roubamos. De quem? No momento roubo de Cintiha e Eladio. Nada pessoal! Tudo pessoal!

12:37 AM  

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