Sobre pesquisa e outras infâmias

Diário de campo de dois espectadores e um pródigo bucaneiro.

quinta-feira, outubro 13, 2005

Qual é o parentesco que existe entre um feto, um morcego e os tipos de pesquisa?


“A consciência reina mas não governa”
Paul Valery


O médico do único posto de saúde da aldeia indígena Warao, no delta do rio Orinoco, na Venezuela, me pediu que ficasse uns dias tomando conta do local porque ele teria que viajar. Uma dessas noites chegou um jovem indígena com seu pai. Fazia três dias que eles remavam até conseguirem chegar ao posto. O jovem tinha sido mordido por uma cobra e estava com parte da mão esquerda necrosada.

O pai não quis que seu filho fosse atendido pela única enfermeira do posto que os recebeu. Quando perguntei qual era a razão da resistência ele me respondeu que não permitiria que seu filho fosse atendido por uma mulher grávida.
Utilizei minhas últimas reservas de neutralidade axiológica para entender o comportamento do pai indígena e consegui apenas respeitar sua decisão.
Afortunadamente, o médico voltou no dia seguinte e, com muita dificuldade, o ajudei a suturar a mão do jovem.
Somente muitos anos depois acredito ter entendido a decisão deste pai Warao. Trata-se de um conhecido medo que muitas tribos, no mundo, têm do feto humano.

Foi a partir da leitura de “Pureza e perigo”, livro escrito pela antropóloga inglesa Mary Douglas que tive acesso a seu consistente e belo insight. Toda realidade ou situação de difícil classificação torna-se, em qualquer cultura, perigosa ou poluída. Daí vem, por exemplo, nosso medo e a mitologia envolvida em torno do morcego, que é um animal de difícil classificação. Pelo tipo de locomoção poderia ser classificado como um pássaro, entretanto, pela forma da cabeça ou tipo de pelugem poderia ser classificado como um roedor. Restariam resolver ainda as formas das orelhas e tipos de alimentação que não intentaremos classificar para não espantar os leitores.


Os fetos humanos são responsáveis, em algumas mitologias indígenas, pelas tragédias naturais e pelas perdas das colheitas. O feto é uma realidade de difícil classificação. Nenhum indígena precisa estudar fisiologia comparada para saber que um feto humano é muito parecido com muitos tipos de feto animal. Portanto, o feto humano está no meio do caminho. Nem é humano nem é animal, daí seu poder maligno, seu perigo ou poluição.

Nesses dias, um aluno me fez a seguinte pergunta: professor, eu vou fazer umas entrevistas nas casas dos meus colegas aplicando um roteiro de perguntas abertas... Que tipo de pesquisa é esta? Eu respondi: pelo tipo de técnica de levantamento que você vai a utilizar - que é a abordagem em domicílio - poderíamos dizer que é uma pesquisa quantitativa. Agora, pelo tipo de instrumento que você decidiu utilizar que é um roteiro, e portanto, tem perguntas abertas, sua pesquisa pode ser classificada como qualitativa. Sinceramente, não sei que tipo de pesquisa é essa... Meu aluno arregalou os olhos, acho que de medo.

PS: Nessas horas, os manuais de pesquisa também se "tremem" nas calças.

abraços a todos

Eladio e Cinthia


Conferir:
DOUGLAS, Mary. Pureza e perigo. São Paulo: Perspectiva, 1976.


Dedicamos este texto a Federico Percibal e a Maria Cecilia Oduber

4 Comments:

Blogger Nina Barki said...

UFa!
Q bom saber q às vezes nem vc sabe q tipo de pesquisa é esse... hahahaha
Beijos!

12:42 PM  
Anonymous Diego Sobrinho said...

Olá titios!! Entraram de cabeça na era digital, hein? Maravilha!! Comento pouco, mas confesso aos mais próximos que andei superando minha ojeriza à tecnologia. Não perdi o medo das coisas andarem rápido demais, do conhecimento ter prazo de validade e da vulnerabilidade de qualquer ação no mundo virtual: só fecheii os olhos e pulei. Entei no orkut, andei fazendo planilhas no excel, até visito blogs de amigos.
Muito interessante o texto, num sentido mais amplo... porque, no que diz respeio a sua pertinência ao campo da pesquisa, é assunto pra vocês. Acho que o assunto é tratado de um jeito meio sacana - não vil, sacana de sacanagem mesmo, cafajestagem, malandragem... - porque revela toda uma teoria mostrando só a marquinha do biquini. Deixa curioso e instiga o leitor, provoca, faz a gente fazer mil inferências sobre os não-classificáveis... e olha que é um universo não desprezível. Aliás, já até surgiu uma nova classificação: os "não-classificáveis"!! Brincadeira!! Grande beijo.

12:04 PM  
Anonymous bjota said...

Meus queridos mestres, as reflexões de vocês ajudam bastante. Bem, quanto ao feto/tipos de pesquisa, há grandes relações. Apesar do feto ter uma carga genética/informação, depende da relação com o ambiente, o desejo dos pais, educação,enfim, que poderemos saber o que ele vai ser. Talvez a pesquisa seja a mesma coisa, um roteiro de pesquisa com questões abertas em visitas domiciliares pode nascer quantitativa ou qualitava, mas vai depender muito do tratamento que der depois. Se transformar todo o conhecimento em % e pizzas, aí é quanti, se agrupar em códigos, modelos, esquemas ou um texto corrido, daí em quali. Não sei, essa diferença para mim ficou clara quando associei pesquisa qualitativa a palavra todo.

1:52 PM  
Anonymous Leoh (para além do terceiro excluído) said...

Vagando em mares distances, certa vez encontrei um povo. Eram os sodazilivic. Um povo bastante antigo. Provavelmente possuidores de tesouros de tempos imemoriais. Minha ganância saltitou em felicidade. Confesso que fiquei curioso para conhecê-los. Bom, mal. Direita, esquerda. Certo, errado. Sujeito, objeto. Verdadeiro, falso. Homem, mulher. Claro, escuro. Dia, noite. E assim esse povo pendulava. Eram binários. Nunca conseguiam pensar um terceiro, quarto, quinto... lá nada era líquido! Nada era plasma ionizado! Engraçado... também não haviam morcegos nem fetos. Somente havia um tipo de tara: a profissional. Da pilhagem, sem conclusões, sem esquemas, sem certezas, sem matrizes, lancei os dados, queimei os manuais, desliguei imagens e sons. Voltei ao mar. Amar. Enfim, ser amador.

2:06 AM  

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