Sobre pesquisa e outras infâmias

Diário de campo de dois espectadores e um pródigo bucaneiro.

quarta-feira, outubro 03, 2007

O Juízo Final

“O grande dilúvio de que tantas mitologias falam pode ter sido uma gota de suor que se desprendeu de dois amantes” *

O esforçado estudante de saxofone improvisa diante dos examinadores. Depois de terminar, os professores deliberam e o reprovam.

O jovem saxofonista, desapontado, quis tomar satisfações. Um dos professores justifica a menção: “faltou ao seu improviso profundidade estilística”. Era verdade...

Ausência ou presença de estilo diferencia um artista de outro. Entretanto, “estilo” não é uma categoria metafísica. Estilo é síntese e mudança ao mesmo tempo. Sem estes dois elementos qualquer arte torna-se ingênua... ou melhor, torna-se inerte.

Algum dia seremos julgados pelo casal de amantes que inundam os planetas com suas gotas de suor. Virando seus rostos na nossa direção nos perguntaram em uníssono:

A qual das suas atividades você dedicou forças, ou ofereceu tempo e alma para que ocorre-se nela alguma mudança estilística?

Qual dos seus desejos cresceu ou superou a imobilidade?

Qual deles triunfou sobre a doença e avançou além do girar eterno e obsessivo entorno dos antigos traumas?

Qual foi mutilado? Qual ultrapassou a infância ao ponto de poder afirmar: assim pintava, escrevia e dançava eu antigamente. Assim danço pinto e escrevo hoje!

Qual dos seus desejos teve infância, maturidade e velhice?

Qual permaneceu ingênuo?

... Que pena faltou na sua vida "profundidade estilística" meu caro pedestre.

Eladio Oduber

Conferir: OSTROWER, Fayga. Acasos e criação artística. Rio de Janeiro: Campus 1995.

Cooker Jerry. Improvisando em Jazz. [Sine data nem loco]

Imagem: Jarra ingênua. Eladio Oduber. Outubro 2007

* Anónimo... do meu caderno de anotações. Que bom seria se esta imágem fosse minha

2 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Ora, ora, ora... um pouco de tristeza matinal faz bem para nos instigar a refletir sobre nossa presença aqui neste mundinho, nossa vida e, principalmente, nossos sonhos de algo melhor para nós e para os outros. Acho que a isso se referia Aristóteles quando disse que "se existe, para as coisas que fazemos, algum fim que desejamos por si mesmo e tudo o mais é desejado por causa dele... evidentemente tal fim deve ser o bem, ou melhor, o sumo bem". Que bom ter vocês de novo aqui. Graça.

11:22 AM  
Anonymous João Paulo said...

Mestre do sumiço (transubstanciação?)!

Sua jarra não tem nada de ingênua (na
sinonímia que você aponta: inerte).
Nem mesmo naïff ela é. Me pareceu que continha
boa dose daquele líquido
amoroso que escorre da epígrafe do seu texto.
Este que, apesar da ortografia
algo portunhola, é sempre erguido sobre boas
idéias e reflexões maestrinas.
Não troco estas pela outra, não mesmo! E só
admito o título da tela caso ele
se refira à ingenuidade de crer num certo ideal
de país a que o futuro teima
em não chegar. País este cuja bandeira, nada
ingenuamente, se entrevê no
corpo translúcido da jarra, metáfora do homem
transbordante que a engendrou.
Verterão, este e aquela, o suor divino
convertido em lágrimas de exilado
voluntário por vezes não-correspondido?
Seqüelas de um processo de
naturalização cheio de artifícios? De dores de
amores? Das mais-valias da
vida?

Cartas para a redação. Holly ks!

3:31 PM  

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