Sobre pesquisa e outras infâmias

Diário de campo de dois espectadores e um pródigo bucaneiro.

quinta-feira, agosto 10, 2006

A Chave


Nada há mais excitante e assustador que encontrar uma chave de fechadura desconhecida. Poucos objetos desestabilizam tanto meu equilíbrio ético.

Sem discriminar o tipo de chave encontrado, sempre me invade o desejo freudiano de procurar-lhe um buraco e desenfreadamente provar todas as fechaduras ao meu alcance.

Nestas horas meu otimismo é tanto, que ficaria naturalmente satisfeito se, depois de poucas tentativas, conseguisse abrir aquilo que a chave perdida guardava tão silenciosamente.


A angustia de quem perdeu uma chave é diferente da angustia daquele que a encontra...O sofrimento do dono da chave é um sofrimento oco, parecido com o desconforto do estômago vazio. A aflição de quem encontra uma chave é semelhante à de alguém que anda só com um canivete numa noite escura. Quem perde a chave teme o corte do canivete na boca do estômago, quem encontra a chave teme o tropeço com o vazio.

Os corações solitários acharam ou perderam suas chaves - metáfora esta de uma pobreza e um didatismo emblemático. Pacientes que sonham com chaves que procuram fechaduras irritam seus terapeutas já grisalhos.

Hoje encontrei três chaves que não abrem fechadura alguma da minha casa. Meu espírito mergulhou num enigma tenebroso: como é que vem parar três chaves que no funcionam no interior do meu quarto ? Em que momento eu tranquei o que quer que fosse e guardei estas chaves?

A impaciência de ter uma chave que não abre fechadura alguma provêm da certeza de que alguma fechadura ela abre e não sabemos qual... por isto temos dificuldade de desfazer-nos dela. Seria como jogar fora a esperança, como desistir do futuro ou abrir mão do nosso intelecto ou dos nossos objetivos existenciais. Jogar fora uma chave solitária é assim como negar os encontros possíveis, fechar as portas para o amor... Portas ?

Estas se fecham com outras chaves bem plantadas na arrogância das suas funções. A fragilidade de uma chave solitária pode ser semelhante à de um velhinho que teve sua mocidade de canalha... quem sabe esta chave, hoje inútil, outrora espalhou o sofrimento e a separação? Isto também é possível.

PS: Larguei este texto durante umas três horas antes de terminá-lo e reparei que mais uma vez Walt Disney agendo-me a alma. Lembrei–me que segunda feira tinha visto Piratas do Caribe II. Para quem não viu o filme trata-se da história de uns piratas que ficam procurando e brigando por uma chave que abre um cofre em que está o coração do mal...vai tomar ... !

Eladio Oduber


Conferir: nada, nenhum livro... talvez alguém possa ligar para o Leo, ele sabe bastantes histórias de piratas.


Imagem: A Chave / Eladio Oduber 2006

5 Comments:

Anonymous Walkiria said...

Bom dia!

Mestre, adorei esse texto! Quanto ao filme,estou so assistir o 1º, mas entendi a relação agora...

Abraços....
Walkiria

9:52 AM  
Anonymous bruno ayres said...

Adorei! Um abraço!

11:13 AM  
Anonymous Sensucília said...

Oi Aládi e Cindria!

Empogante a produtividade desse blog. Fiquei de cara qdo percebí que o texto "a chave" era de hoje. Ainda estava curtindo o Narguilé...
Que lindo o processo de criatividade se expandindo... Inveja. Da positiva, se existir alguma assim... Diáfana a pintura do narguilé, Aládi, parece uma bailarina levíssima, etérea, de cristal... Ela dança, gira...passa, luz de lua. Em volta, mistério, penumbra... Escuridão de sonho... Luciana tem razão sobre os textos, mt poesia que ainda não se assumiu... Parabéns campeão!!!
Beijoca.

12:07 PM  
Anonymous Anônimo said...

Puxa vida, que saudade de vocês e dessas conversas de chaves e narguilés... Umas me fazem rir, outras quase me entristecem, mas todas me fazem refletir. Como isso é bom! Beijos, Graça.

3:48 PM  
Anonymous a filha do pecado ou bint al haram said...

fechaduras: 1. educação; 2. política; 3. trabalho; 4. religião; 5. lar; 6. família; 7. arte; 8. linguagem. eis minhas chaves: 1. analfabetismo voluntário + hacking da realidade! 2. formação de redes de conexão clandestinas e insurretas! 3. economia informal, empregos autômomos, fraudes, opções criminosas, cultivo de maconha, etc! 4. multiplos anarko-misticismos! 5. nada de vitimizar sem-tetos, tudo aos posseiros urbanos! 6. anti-miséria edipiana! 7. substituição da representação pela presença! 8. sistemas dinâmicos complexos de dialetos e gírias!

11:31 PM  

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