Sobre pesquisa e outras infâmias

Diário de campo de dois espectadores e um pródigo bucaneiro.

segunda-feira, maio 15, 2006

Sobre “acabar com as notas”: em resposta ao professor Stephen Kanitz.

Ontem encontrei no meu escaninho uma folha solta. Era uma copia de um artigo da revista Veja do 10 de maio de 2006, escrito pelo professor Stephen Kanitz, articulista desta revista formado em administração pela Universidade de Harvard.

O artigo cujo titulo é “vamos acabar com as notas” questiona o método de avaliação dos alunos nas instituições de ensino através do sistema de notas. Kanitz se pergunta se é possível avaliar, mediante este sistema, a criatividade do aluno. E por outro lado questiona se é possível saber se o aluno resolverá algum problema relevante para se próprio ou para a nação no contexto do atual sistema de ensino.

Propõe então a abolição do conceito de nota e defende a idéia de auto-avaliação. Este último conceito permitiria a construção de um sistema educacional em que o aluno não estude para as provas e sim para ser útil na vida.

Acredito que o artigo do professor kanitz foi escrito com as melhores intenções no sentido de contribuir para a discussão sobre o papel da educação na nossa sociedade atual.

Entretanto, é preciso dizer que, para entender o núcleo de tais questões, há muito tempo debatidas no Brasil e o mundo, talvez devamos discutir a função histórica e social das instituições de educação nas sociedades modernas e contemporâneas.

A sociologia e antropologia descobriram, também há muito tempo, a diferencia que existe entre as intenções declaradas e as latentes dos empreendimentos humanos. Historicamente as instituições de ensino parecem destinadas a educar os indivíduos no sentido de colaborar com a felicidade e o progresso geral da sociedade. No entanto, nunca foram estes os principais objetivos destas instituições.

Dependendo do país e da época, os mosteiros, colégios, ou universidades foram centros de formação de elites mantenedoras e reprodutoras dos valores e comportamentos hegemônicos da sociedade a que pertenciam. De forma geral, estes comportamentos e valores estavam diretamente vinculados à manutenção da estrutura ideológica e material que sustentava as formas de organizar tais sociedades.

Na Grécia antiga a Academia de Platão e o Liceu de Aristóteles não promoviam o levante dos escravos, que eram a fonte de sustentação do sistema político e econômico grego. Os mosteiros da Idade Média formavam a elite geradora e mantenedora de uma instituição muito rica e poderosa que monopolizava a representação de Deus na terra. No período iluminista e, posteriormente, na revolução burguesa, os colégios e universidades difundiram o “ethos” cientificista, principal instrumento de conquista e dominação do mundo por parte desta nova classe industriosa.

Talvez, na atualidade, os centros de ensino não estejam, ainda, em acordo com a supremacia definitiva do capitalismo global. Tenho medo que seja isto que incomode ao professor Kanitz. A falta de verdadeira sintonia das escolas e universidades com o mundo utilitário, individualista e maximizador de lucros.

Eu gostaria parecer um pouco menos tímido que o professor Kanitz. Defendendo, não a eliminação das notas e sim, a abolição das instituições de ensino, a supressão dos horários das disciplinas, dos curricula, das normas, dos manuais de comportamento da lista de chamadas das cadeiras e salas de aulas e principalmente do professor e seu “atrium”.

Imagino a instituição educativa como um templo em que as pessoas participam de projetos apaixonantes, ao final a etimologia da palavra estudo -“studio” - significa paixão. Em lugares em que os estudantes possam pensar, namorar, discutir, especular, inventar, delirar.

Ou melhor ainda, imagino os sistemas educativos sendo itinerantes em que os que aprendem vivem em nomadismo durante os melhores anos da sua formação. Sistemas não tradicionalmente hierárquicos em que a figura do mestre seja carismática e não burocrática, e o professor seja escolhido pelo mérito e prestigio da sua experiência e conhecimento e não pela quantidade de títulos ou amizades que possua dentro das instituições.

Não basta tirar as notas é preciso derrubar os “caixotes” em que o conhecimento foi ilusoriamente colocado. A história, a física, a matemática, a poesia, a biologia a antropologia, o direito, a medicina, a comunicação a astronomia permanecem com seus vasos comunicantes abertos. Somente a academia não reconhece isto. Bertrand Russel, Fruto Vivas, A. N. Whitehead, Ludwig Wittgenstein, Antonio Gaudi, Humberto Eco, Max Weber, Karl Popper, E. Durkheim, Bertold Brecht, LeCorbusier, Simon Rodriguez, Guimarães Rosa, Lúcio Costa, são exemplos de autores citados e idolatrados nas academias e que pouco caso fizeram das fronteiras disciplinares.

A escola reproduz o sistema de hierarquias presentes no Estado , nas organizações e na família. Não há saída no interior deste paradigma, de nada adianta tentar consertá-lo.

É isto o que nos deslumbra: como desejar ser algo para o qual não fomos educados?

Abraços do Eladio


PS: No primeiro bimestre deste ano utilizei o sistema de auto avaliação com meus alunos utilizando um instrumento de trinta e oito categorias que tentaram atingir vários aspectos do processo de ensino-aprendizagem. O cabeçalho da avaliação tinha o seguinte texto:

"Prezado (a) aluno (a): sabendo que, numa escala de 01 a 10, (01 e 02 pontos traduzem Insuficiente); (03 e 04 Fraco); (05 e 06 Regular); (07 e 08 Bom); (09 Muito bom) e (10 Excelente). Avalie de forma SINCERA cada aspecto da sua atuação no primeiro bimestre da disciplina. É importante lembrar que uma auto-avaliação SINCERA é uma excelente oportunidade de crescimento humano e profissional".

Como era de se esperar, uma auto–avaliação realizada num ambiente educativo em que o professor não treina, desde cedo, seus alunos para se auto-avaliarem, sem tradição autocrítica, individualista, competitivo e com sede de notas, obtive o seguinte resultado: os meus piores alunos estão muito contentes com seu desempenho, se acham brilhantes!!!!

Imagem: Kitsolidão / Eladio Oduber 1993

4 Comments:

Blogger Nina Barki said...

Assim como a auto-terapia, a auto-avaliação requer mais do que treino: requer uma capacidade quase que inata de perceber sua contribuição para a sociedade, as aulas. Quem sabe se tivéssemos sido treinados desde pequenos para não "sermos pequenos".
Se tivéssemos aprendido a humildade (característica que, infelizmente, parece estar sumindo dos planos de educação dos pais), ao invés de querermos ser os melhores, maiores.
Acho muito difícil abolir as instituições ou as notas, pois nos falta a auto-disciplina.

Mas quem sabe um dia?

9:15 AM  
Anonymous Anônimo said...

Querido professor,

Concordo que deveriamos ter um novo método de ensino. Apenas quanto a auto avaliação é muito relativa porque não depende só do aluno o interesse pela matéria , eu mesma já tive professsores que nem mesmo eles sabem o que estão fazendo ali na frente, uma desmotivação total.
Agradeço muito a oportunidade que tive de ser sua aluna, a partir daquele momento o meu olhar sobre o que é dar aulas e ser um verdadeiro mestre me trouxe a certeza que são poucos aqueles que tem amor em ensinar além dos livros. Obrigada, com suas aulas aprendi a ver as coisas por outro lado.

6:19 PM  
Anonymous Anônimo said...

gostaria de saber quando iria ter outro chá na esplanada , quero ir.
Sugiro que avise os leitores desse blog com alguma antecedencia, mesmo que seja para o mesmo dia, mas pelo menos coloque o aviso na parte da manhã.
Voce sabera quem sou qumdo lá aparecer.
Lembranças para a Cinthia, Ana Cecilia e familia.

6:56 PM  
Anonymous insetoinside - C13H12N2O said...

sonho erro risco aposta: quantos professores! nenhuma autoridade! o que fazer a partir daqui? o gênio foi invocado!

10:11 PM  

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