Notas desonestas sobre o livro E se eu morrer amanhã? De Filipa Fonseca Silva
Helena é uma viúva de 79 anos que flutua sobre as chamas como um pedaço de carvão que se recusa a apagar.
Este romance é sobre a vida, o final da vida e sobre a morte.
A nossa sociedade tem dificuldade em se colocar no lugar dos mais velhos e em entender o processo de envelhecer. A escritora Filipa Fonseca consegue, com 47 anos, entender o processo subjetivo de inadequação de uma mulher idosa na modernidade.
O problema social da morte é especialmente difícil de resolver porque os vivos "funcionais" acham difícil identificar-se com os velhos e os moribundos.
A morte é um problema dos vivos. Os mortos não têm problemas.
A vida de Helena tornou-se cada vez mais incerta e menos controlável e, por isso, perigosa para o seu entorno.
Parece que Helena decidiu morrer de forma menos higiénica, mas nunca sozinha.
Helena não procurava alguém que a levasse pela mão como a uma criança, uma figura materna ou paterna que lhe apontasse o caminho a seguir.
E, por isso, não aderiu a crenças no outro mundo que prometem proteção metafísica contra os golpes do destino e, acima de tudo, contra a transitoriedade pessoal.
Isto expressa-se no diálogo quando oferece uma bebida à sua neta:
— Não, obrigada, ainda é um pouco cedo…
— Um pouco cedo para quê? Para viver um bocadinho?
Talvez o único medo de Helena fosse perder a força e a independência, e especialmente perder o controlo de si mesma. Provavelmente por isso a autora escolhe o atropelamento como saída final.
O romance é uma reflexão crítica sobre as pessoas que buscam constantemente alguém que as alivie do peso das decisões existenciais, alguém que dite as regras pelas quais devem viver e formule os objetivos para que as suas vidas sejam dignas de serem vividas.
Estas notas são paráfrases desonestas de um texto de Norbert Elias no livro A Solidão dos Moribundos.
Eladio Oduber
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